El Pibe de Oro e as contradições napolitanas



Foi com uma mão emprestada a Deus, e sem qualquer piedade pelo adversário, que enviou a bola para o fundo da baliza. 
Nápoles, 5 de julho de 1984. Uns dias antes, a cidade envolveu-se em mais uma das suas habituais azáfamas, preparou-se, juntou vontades, organizou-se e lançou peditórios de rua. Objetivo? Arrecadar 13 bilhões de liras, um valor recorde, o maior de sempre no mundo da bola, na Europa. Não era pouco, mas qual foi a ideia? Contratar o melhor do mundo: Diego Armando Maradona. Sim, o fantástico el Pibe de Oro, esse mesmo, o baixinho responsável pelas maiores grandezas (e até tristezas), pois é de cada lado onde se está que depende a alegria e a tristeza no futebol. 

Maradona, é o único jogador do mundo capaz de esgotar o rol de adjetivações de relatores e jornalistas da bola, um pouco por todo o mundo. A história é simples e começa assim: no ano de 1984 o argentino abandonara o chique Barcelona e rendera-se à Società Sportiva Calcio Napoli, um clube da taquicárdica cidade que habita o sul da calcio. Vestido de azul claro e também com as riscas brancas que faziam dele o diablo argentino, Maradona viria a transformar-se num Deus - romano, ou grego ou até no Próprio Divino - mas, com toda a certeza, a tornar-se na lenda mais dramática, polémica e burlesca da história do futebol Mundial. 

Nápoles, que por ele fez passar as suas próprias contradições, levou-o a atravessar todos os extremos da vida. Sim, convivem ali vários opostos, e permanecerem como um tique-taquear que oscila entre o pecado e a redenção. Nápoles é o caos e a mais pura vontade de viver no cosmos. Discretos, juntam-se os mais belos monumentos, as pessoas que ajudam e compreendem os que precisam; mas também as mais terríveis afrontas: ao património, ao bom gosto, à higiene, ao silêncio, à ordem, à coexistência social (e arquitetónica), à mobilidade, ao trânsito ordeiro, que na cidade das scooters e das melhores pizzas de Itália, se transforma numa feira com carrinhos de choque, sem regra e sem ficha.

Quando mudou para Nápoles, Maradona sentiu-se lisonjeado pela vontade dos dirigentes do clube e confessou, anos depois, que não podia desiludir a paixão e a autenticidade dos adeptos da decadente cidade de Nápoles. Afinal, amavam-no, e era a sério. E foi por isso mesmo que os napolitanos o disputaram, com unhas e dentes, junto das ricas cidades do norte, e de outras cidades de países mais desenvolvidos.

Começara, então, o caminho da glória de Maradona, que foi também a apogeu das glórias da bola da inseparável cidade de Nápoles, na qual o jogador deixou o nome por toda a parte. O resto é história e todos sabemos. Mas destaco um episódio: no Verão de 1986, Maradona fintou meia equipa da Inglaterra, e marcou o que foi considerado o "Golo do Século". É, na verdade, um dos mais belos de sempre, todo ele na primeira pessoa, o golo com o estilo e a marca inconfundível, própria da genica do endiabrado Maradona. 

Na ressaca do golo, o bem-humorado Hector Enrique saiu-se com piada que ilustra o fenómeno que foi Maradona. Nesse lance, Hector foi o último jogador da seleção La Albiceleste, a tocar na bola, antes de o esférico chegar aos pés de Maradona, ainda no meio-campo da Argentina. E lá foi assegurando, tranquilo, a todos os que queriam ouvir de novo a história do golo:
- Depois do meu passe, o mais difícil era Maradona falhar!
Um apontamento que ilustra bem as contradições da cidade de Nápoles e do seu, para sempre campeão, el Pibe de Oro.

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