As escadas


Quantas horas esperei por ti nas escadas em frente à casa dos teus pais, Daniela? Chovesse ou fizesse sol, era ali que esperava por ti, antes de descer em definitivo meia-dúzia de  degraus que vinham do caminho da escola - e não me lembro alguma vez de voltar a subir aquele caminho. Usamo-lo quando éramos crianças e íamos para a escola de mãos dadas, quase loiros, como se fôssemos namorados nórdicos.


Valeu a pena cada minuto que esperei por ti. Aguardava, expectante, o momento em que a dona Alzira te libertasse das lides da casa, e o Sr. Figueiredo, subchefe da Polícia, autorizasse a tua saída. Ele permitia que saísses, mas sempre contrariado, com se interrompesse um período de prisão preventiva sentenciado pelo tribunal, em vez de se sentir feliz com o cruzar dos teus nos meus dedos da mão. 

Fui quase sempre paciente e tranquilo, e isso ajudava-me a lidar com as exigências do teu pai. Pensei que as atitudes e regras que ele impunha pudessem desaparecer com o tempo. Sentia que, apesar de eu ser da família Borba e tu uma Costado, as antigas disputas familiares podiam ser esquecidas, até que desaparecessem por completo, pela constatação da nossa felicidade. Mas das nossas famílias, que eram enormes antes do vinte e cinco de Abril, sobramos poucos. A maior parte das pessoas já não mora neste mundo e os restantes, ou foram para o estrangeiro, ou faleceram. Na imaginação fértil das nossas cabeças, todos eles estão na vila, a tratar dos campos e das hortas, a cuidar uns dos outros, segregando a seiva com que alimentam inúteis guerras de quintal. Resta, pois, a minha mãe e o meu tio, os dois, tranquilos e quase em paz, nas suas vidas caseiras, a produzirem quase tudo, menos chatices.


O tempo do rock n’roll, da livre escolha e da emancipação da mulher não é compatível com a burocracia do teu pai, Daniela. Movido não sei bem por que valores, fazia das tuas saídas um ritual sem passagem, cronometrado e repetitivo, um imperativo ético e moral, de guarda e custódia policial.

E apesar de tudo, eu fazia por aceitar a modalidade. E estaria sempre na mira dele, disponível para ser a cara metade que aguarda por ti nas escadas, em frente à entrada de quase tudo. De resto, e à parte as exigências do Figueiredo, amo-te, tanto e sempre, que daria tudo por ti e pelo nosso futuro. Sei que a tua mãe sabe sobre os meus sentimentos, ela que me cumprimenta, a sorrir, sempre que nos encontramos no café central. Há uns dias, antes de desapareceres, encontrei o padre Mariano, que confessou ter-nos nas orações, para que tudo dê certo.


O teu pai comprometia-te com uma hora fixa para regressares a casa, e isso queria dizer que chegarias muito antes, ou antes da hora, jamais depois. Sinto o mesmo, por tudo isso, e o Sr. Figueiredo mal me conhece e jamais me considerou, mesmo depois de lhe ter mostrado que estava à altura. É um homem austero e insensível. Uma troca de olhares fugidios no largo da igreja foi a maior prova de proximidade que alguma vez me deu, apenar de eu nunca ter conseguido imaginar, com clareza, o que significou. Concluí apenas que, para ele, eu existia, mas sem relevância, existia levemente. No ínício parecia haver um pacto entre ele e eu, um acordo silencioso que, penso agora, talvez fosse um desejo meu, que nunca tenhamos cumprido. Além das perguntas habituais, ele pedia-te um relatório sobre a origem e as intenções de quem lá fora esperava por ti, fazendo depois um interrogatório pormenorizado sobre o que se passou em cada  passeio. Mas era sempre eu quem esperava por ti cá fora, mais ninguém. Mais ninguém, com exceção da tua tia e do teu primo afastado, o “Espanhol”, que começaram a aparecer frequentemente. E de repente aquele madeira de castanholas entrava e saía da tua casa, sem esperar nas escadas, autorizado a passear contigo de carro, a voltar contigo ao final da tarde, rindo não sei de quê.


Quando há uns meses atrás, no degrau do costume, esperei por ti, e não apareceste atrás da cancela, sorridente como era habitual, estranhei. Estarias doente? O Sr. Figueiredo e a D. Alzira podem não ser os melhores pais do mundo, mas costumam ser pontuais em tudo o que fazem, por isso não compreendi o atraso e inquietei-me.

- Vicente, já pensaste alguma vez em morar no estrangeiro?

Havia movimento dentro da tua casa, a tua mãe varria o jardim devagar, o teu pai estaria na sala, porque o cão pastor, o Tobias, não apareceu cá fora, talvez estivesse dentro de casa. O teu pai estava, por certo, na sala a ler o jornal, ou a descansar, no quarto. Nunca pus os pés na tua casa, mas conheço as rotinas e imagino os movimentos.

- Gostavas de morar longe da vila, Vicente?

Nesse dia, e daí para a frente, não sei o que aconteceu, mas tudo parece ter mudado. Os teus pais ficaram em casa, a tua mãe não saiu à rua, e nunca mais a vi no padeiro ou no café. Jamais voltei a ver o teu pai na casa de ferragens do Navarro, a falar com o senhor Crespim. Sei apenas, da voz do padre Mariano, que a tua partida da nossa terra foi muito sentida, mas mais não disse. Em conversa com o Guilherme Veludo, da Casa das Fazendas, soube que tinhas ido viver para Espanha, com o teu primo, o "Espanhol". Não compreendo a maldade das pessoas da Vila, mas dizem que passeias, feliz, com um carrinho de bebé e uma bela criança lá dentro, pelo Parque do Retiro de Madrid.


Não sou de dar ouvidos ao que o povo diz, mas à cautela, continuo a esperar por ti, Daniela. Espero nas escadas de sempre, à hora do costume, com as mãos nos bolsos a chutar pedrinhas e a pensar coisas novas. Às vezes o Tobias vem esperar-me, ladra e fica ali a olhar para mim, com aquela enorme cabeça inclinada, a fazer-me companhia, ansioso por uma festinha. O “Espanhol” não é homem para ti, sei disso. O Sr. Figueiredo deve pedir-te imensas explicações e relatórios, estou certo que não saberás responder-lhe tão bem como quando pensavas essas justificações comigo, o teu homem de olho verde e cabelo quase loiro. Afinal, serei sempre a melhor companhia para continuares a percorrer os jardins da tua vida. 


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