As escadas
Quantas horas esperei por ti nas escadas em frente à casa dos teus pais, Daniela? Chovesse ou fizesse sol, era ali que esperava por ti, antes de descer em definitivo meia-dúzia de degraus que vinham do caminho da escola - e não me lembro alguma vez de voltar a subir aquele caminho. Usamo-lo quando éramos crianças e íamos para a escola de mãos dadas, quase loiros, como se fôssemos namorados nórdicos. Valeu a pena cada minuto que esperei por ti. Aguardava, expectante, o momento em que a dona Alzira te libertasse das lides da casa, e o Sr. Figueiredo, subchefe da Polícia, autorizasse a tua saída. Ele permitia que saísses, mas sempre contrariado, com se interrompesse um período de prisão preventiva sentenciado pelo tribunal, em vez de se sentir feliz com o cruzar dos teus nos meus dedos da mão. Fui quase sempre paciente e tranquilo, e isso ajudava-me a lidar com as exigências do teu pai. Pensei que as atitudes e regras que ele impunha pudessem desaparecer com o tempo. Se...