Teresino
- Olha, olha, olha! Esta gente não sabe o que é a decência. Viste bem?
Há uns anos, pareciam uns pelintras. Cheios de fome, a roubar frutas e galinhas aos vizinhos. Depois vieram os comunistas e os sindicatos, o Soares e os chuchialistas, o Sá Carneiro e os laranjas do Cavaco. E o Freitas, o católico, que virou o bico ao prego? Este país é um jardim.
Naquele tempo, todos os dias chegava um camião de dinheiro de Bruxelas. Foi um forrobodó. Das casinhas fizemos casas, dos caminhos, auto-estradas, das vilas escuras, fizemos cidades iluminadas e centros comerciais. Foi gastar à tripa-forra.
- Oh tu aí, sopeira, vai mas é trabalhar! Tanta moda nessa poda, pareces uma pavoa amacacada!
Dantes os nossos aeroportos só tinham uma pista. Hoje, parecem cidades, e ainda querem fazer mais. Já o comboio, mirrou, venderam-no para a Venezuela. Trocámos a infraestrutura por camiões, automóveis e estradinhas por toda a parte. Sabes, houve quem ganhasse muito dinheiro com a maneira encontrada para trazer o desenvolvimento da Europa para cá.
- A tua filha foi para a Venezuela, não foi?
Ninguém quer ver, mas a escumalha de hoje é tão pobre e estúpida como sempre foi. Andam por aí, parece que em abundância, mas na verdade estão na míngua. E têm fome do que não sabem que lhes faz falta. Nem imaginam. E é aí que está o perigo. Esta escumalhinha miúda passeia-se de carro, é como quem anda a pé nas descidas; e lá vão, de roda no ar, a comprar farrapos nas lojas de marca, a jantar comida estrangeira, a saltar nas festas e nos concertos. Agora passam férias nas cidades e nas praias da Europa e na América, e ou vão de empréstimo, ou com o dinheiro da família, ou com o que vendem sem retorno. Mas e trabalhar? E os negócios a sério? Nada. Agora os estrangeiros chegam e compram tudo, só não levam as casas. E nós gastamos. Alguns patrícios vão trabalhar para outros países, mas vão e logo voltam, porque não encontram nada.
- O que é feito de ti, Portugal? Agora para nós, que estamos só os dois, você sabe? Pois nem eu.
Mas para poupar, comem massa e filetes de pão, com tomate e carne gorda picada por cima, com cogumelos daqueles de lata. E ainda dizem que é bom.
E os filhos da escumalha? Agora são doutores. Os doutores do salário mínimo levam de motorizada as refeições às casas das pessoas. Parecem os filhos do império americano, já não jogam chincalhão. É basquete. Pensas que são melhores do que nós? Eles já não sabem o que é plantar batatas, homem. Olha-se e parece que vivem dentro do cinema e das séries de TV, vivem para os telemóveis que trazem no bolso. Estão sempre a amouxar, com as cabeças inclinadas para baixo, presos à maquineta; ou sérios, ou com um sorriso amarelo, parecem almas penadas e distraídas.
- Quer ver? Ontem a neta da minha vizinha vinha pela rua, de trotinete, como uns auscultadores pequenos nos ouvidos, olhe que ainda não tem dezoito anos, a menina!
Vinha sorridente, com o aparelho nos dentes a reluzir para a frente, como um farolim, ela a falar inglês, com não sei quem, que estaria no outro lado. Olhe, por pouco não se estragou toda contra o vaso do passeio, ali no início da rua. Esta gente nova, para onde vai? Bem os vejo. Fazem juras de amor ao telefone, enquanto vão às compras ao supermercado. E encomendam namoros pela internet. Parecem artistas e bailarinos, a dançar e a falar para os telemóveis. Ali o neto do Pedro anda com a grafonola às costas e com o boné de pala ao contrário, a cinta das calças perto dos joelhos e as ceroulas até ao pescoço. Pum-pum! E não é para ouvir o relato.
- No meu tempo? Ainda bem que concorda comigo.
Ai os homens, coitados. Parecem rabos pelados, com os óculos de sol e as calças arregaçadas. Os desenhos no corpo, com bichos e rostos de pessoas, cornucópias e plantas exóticas. Coitados, os nossos soldados mostravam com a tinta nos braços, o amor às mães, e às mulheres que deixavam cá, enquanto lutavam lá em África. Os que regressavam da guerra apareciam depois com um ar de palanca negra, espantados com o olhar de cabritas das suas próprias mulheres.
- Ahahaha! Acontecia cada uma, eles nem imaginam que confusões tinham havido nos dois hemisférios. E na sua freguesia, também foi assim?
Há coisas que nunca passam, apesar do tempo correr. Estes homenzinhos de hoje põe-se todos os dias em cima das galderinhas do pós-operariado. Parecem os gafanhotos da horta. Com casas de banho mistas na escola, até eu!
- Vem aqui abaixo dar uso ao batom, oh Maria da Ponta!
Detesto isto tudo, sabes? Sei que és da mesma opinião. Estes inúteis não servem para nada. O Soares traiu-nos, o Cavaco, pensava eu que nos ia salvar, mas nada, nem esse. Dos outros já nem falo. Com esta gentinha nunca teremos o país no lugar. Não sabem trabalhar, não suam a camisola, não dão pelos patrões, nem pelas pessoas. Assim não vamos lá. Querem todos mama, mas depois pedem direitos, férias e aumentos, de preferência sem dar ao pedal!
- Jalise! Não vês o chão a precisar?
Estas brasileiras. Vêm para cá sambar com a esterco, é o que é. Só me apetece insultá-las, era dar-lhes uns tabefes bem dados naquelas cuícas redondas, para ver se aprendem o que é trabalhar.
- Oh, senhor Teresino! O que está aí sozinho a falar na varanda? Vamos para dentro, venha para junto dos seus colegas. Está na hora da sua medicação.
- Jalise, dê aqui à roda na minha cadeira. Estava aqui a contar…

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